Boa notícia

Uma vez, faz um tempo já, ouvi alguém reclamar: “Os jornalistas dão notícia ruim atrás de notícia ruim e, no final do jornal, dizem: Boa noite. Como ter uma boa noite?”. É, de fato, uma reclamação compreensível.

Não sei se acontece com todo mundo, mas tem dias que tudo o que eu mais queria era dar uma boa notícia. Chegar na tv falando que tudo está bem, que não há problemas de trânsito, saúde, educação, moradia, emprego, transporte… Tanto que sugeri um quadro pra um jornal lá da tv chamando “Boa Notícia Do Dia”, pra forçar à equipe a procurar algo agradável de se contar.

Aí passeando hoje no Facebook, encontrei esse quadrinho de Felipe Portugal, que mostra exatamente como eu me sinto nos dias de notícias ruins.

3, 2, 1…

3, 2, 1. É assim que sempre começam as passagens da maior parte dos repórteres.

Dizer o ‘3, 2,1’ antes de começar a falar indica que, ao final daquela contagem, é o que deve entrar no ar. Os editores ficam atentos nisso e a chance de erros diminui. As vezes a gente faz a contagem no início, erra e refaz o texto, sem sinalizar com a regressiva. Sabe o que pode acontecer?

Sim, é capaz de passar despercebido pela edição e ir pro ar assim mesmo (embora eu já tenha visto casos de ‘3, 2, 1’ indo pro ar também, mas é bem mais difícil de acontecer o erro). Portanto, se encontrar por aí um repórter fazendo a contagem regressiva, fica de boa, porque é assim mesmo.

Uma pequena historinha

Eu não vi acontecer, mas um amigo de um amigo meu, viu. Ele disse que conhecia um repórter. Legalzinho aquele rapaz, todo mundo gostava dele. Só tinha um problema: o tamanho. Pequenininho, menor que o menor anão do mundo. Mas, tirando isso, era um cara bem gente boa.

Até os entrevistados gostavam dele. Ele não gostava muito de perguntar, sabe? Perguntava só o que tinha na pauta. Não queria se indispor com as pessoas e não fazia por onde questionar. Voltava pra redação cheio de interrogações na cabeça, não sei como aguentava. Mas, enquanto os entrevistados gostassem dele, estava tudo bem.

Certa vez, veja só, o reporterzinho precisou entrevistar um político, daqueles que exalam ‘maucaratismo’. Deixou o microfone à serviço do homem de terno, recebeu uma resposta vazia, sem conteúdo, mas preferiu não insistir. Vai que o parlamentar se irrita, né? Melhor deixar quieto. E até deu certo, pois o político virou camarada dele.

Até que um dia o pequeno repórter acordou, como se diz, com o ovo virado. Chegou na primeira pauta com cara de poucos amigos, sangue nos olhos mesmo, e lá estava aquele político falastrão. Veio todo feliz, cumprimentar o tiquinho de gente que o deixava falar o que quisesse. Mas aquele, não era um dia qualquer. Ah, não era…

O nanico fez a primeira pergunta e, antes do fim da resposta, já emendou a segunda. E assim foi com a terceira, a quarta, a quinta pergunta de uma entrevista cheia de questionamentos. O político suou frio, riu amarelo, não sabia o que dizer… Até que coisas estranhas começaram a acontecer. O pequeno repórter cresceu. Cresceu assim, muito. Ninguém acreditou.

E foi nesse dia em que o pequeno repórter começou a questionar, que ele virou um grande jornalista. Essa história é verdadeira. Quem contou, foi um amigo de um amigo meu.

Aprendizado cíclico

Pra mim, telejornalismo é assim:

Primeiro você não sabe nada. Pode até achar que sabe, mas não sabe, não. Aí você vai aprender, na teoria, como faz. Pergunta a um, pergunta a outro, consulta livros, lê na internet, fuça no YouTube;

Aí chega a hora de pôr em prática. Na primeira vez, você simplesmente quer conseguir. Consegue e fica feliz;

Na segunda, você já começa a olhar pra aquilo de uma forma mais crítica, procurando os pontos pra melhorar – e é aí que a coisa começa a ficar boa.

E aí os dias vão passando, você treina, treina, treina, erra. Treina, treina, treina, erra de novo, treina mais um pouco, até que chega aquele dia que você e fala: “Mas olha só, parece que aprendi”.

Aí você vai procurar outra coisa que você ainda não sabe. Aí você vai aprender na teoria como faz. Pergunta a um, pergunta a outro, consulta livros, lê na internet, fuça no YouTube… E o ciclo vai se repetindo. Sempre buscando ir além, sempre buscando aprender coisas novas, sempre perguntando aos mais experientes, buscando… É assim que tem que ser.

Sobre o respeito

Quando se pensa em jornalistas, muitas vezes as pessoas (que não o são) lembram daquelas cenas de desastres, onde a miséria está por toda parte e, encrustado na paisagem, está a figura do repórter, do fotógrafo. Apesar de não ser só isso, isso também é o nosso trabalho.

O fato de estarmos compondo o cenário, não quer dizer, necessariamente, que gostaríamos de estar ali, ou que não nos envolvemos, não temos sentimentos diante daquilo.

Darei exemplo. Um dia desses, eu cobri a inauguração de um bosque, onde cada árvore plantada ganhava o nome de uma pessoa que foi assassinada em Alagoas. Os familiares das vítimas plantaram as mudas das árvores. Em uma delas, a mãe de um jovem morto brutalmente chorava tanto, tanto… Não segurei as lágrimas. Apesar de estarmos ali “em cima” daquela senhora, anotando, filmando, fotografando, nos comovíamos com a dor daquelas pessoas. Lembro que no meu texto, eu escrevi o que senti ali: “Era como se os familiares estivessem enterrando novamente seus entes queridos”.

Pois bem. Ontem aconteceu um incêndio na favela Sururu de Capote. Doze ou treze barracos de papelão (não lembro bem o número agora) foram atingidos. Não sobrou nada. Foram-se moradias, móveis, colchões, eletrodomésticos, documentos, fotos… Tudo foi consumido pelo fogo.

Desde ontem, na hora do incêndio, várias equipes de reportagem cobrem o acontecido. Hoje, ao ir embora, uma mulher veio me agradecer por eu estar ali. Na verdade, ela não queria dizer somente aquilo. Ela queria agradecer por eu ter tratado o assunto com respeito. Sei disso porque ela continuou falando: “Você veio, fez tudo e tratou a gente bem. Vocês [eu e o repórter cinematográfico] foram dez. Hoje de manhã um repórter esteve aqui e quando viu o estrago disse que tinha ‘ganhado’ o dia. Ele ganhou o dia e a gente perdeu tudo”.

Engoli seco.

Já faz um bom tempo que eu percebi que o jornalista, apesar de ter fatos assim como corriqueiros, não pode se anestesiar, calejar. Um incêndio onde tudo é destruído é algo muito grave para que alguém afirme que ‘ganhou o dia’. A perda dessas famílias grita por uma postura humana diante daquelas cinzas.

Somos jornalistas, precisamos cobrir o fato, informar as pessoas, mas, acima de qualquer coisa, temos a obrigação e o dever, enquanto  profissionais e seres humanos, de ter – pelo menos – respeito a quem olha para o pó e não enxerga uma luz.

Quem pergunta o que quer…

As vezes a gente faz umas perguntas e ouve umas respostas que nos deixam revoltados. Veja:

As declarações de Galba Novaes tentam justificar o injustificável: a falta de vereadores às sessões da Câmara. Para que uma sessão seja aberta é necessária a presença de apenas sete parlamentares até às 9:15 da manhã – o que muitas vezes não acontece.

Quando não há quórum, votações deixam de acontecer. Quem fica à mercê é a população, que tem que esperar a boa vontade dos senhores parlamentares de comparecerem ao trabalho. Os políticos têm dois dias na semana para compromissos externos (segundas e sextas). Lógico, é compreensível e justificável que vez ou outra uma reunião importante, por exemplo, aconteça paralela à sessão. Isso, no entanto, não pode servir de desculpa para vinte e uma pessoas ao mesmo tempo.

E é como se diz: quanto mais mexe, mais fede. Colocar a culpa no trânsito? Francamente! Alguma vez você, trabalhador, já faltou o serviço por causa dos engarrafamentos? Será que os “Excelentíssimos Senhores Vereadores” não podem se dar ao trabalho de sair mais cedo de casa, como eu faço, como você faz, por exemplo? A imprensa tem papel fiscalizar o órgão fiscalizador. Isso não quer dizer que os trabalhos só possam aconteçam diante dos nossos olhos. Afinal de contas, os vereadores não trabalham – ou não deveriam trabalhar – apenas para “aparecer nos jornais” e sim para honrar o voto de confiança dado pelo eleitor.

Informar e conscientizar

Primeiro, veja esse vídeo:

“Lugar de ciclovia é na praia, não é aqui não!”. Quando eu ouvi a motorista dizendo essa frase, fiquei sem ação. Demorou, sei lá, 3 segundos, pra que caísse a ficha de que ela realmente acha que bicicleta é pra usar no domingo de sol, na ciclovia da orla, admirando a cor azul do mar.

Enquanto a gente cobra frequentemente aos órgãos públicos por mais espaço no trânsito para que todos possam se locomover com mais facilidade, temos pensamentos e visões de pessoas egoístas, que só pensam no próprio bem-estar, como essa mulher que, talvez num momento de fúria, soltou uma frase idiota e infeliz.

Eu não tenho bicicleta, não ando de bicicleta, nem sei se ainda sei pedalar… Mas aplaudo de pé iniciativas como a construção de uma ciclovia e uma ciclofaixa, que separam os espaços, garantem segurança e salvam vidas.

As ciclofaixa são coisa nova. Não é comum encontrá-las pela cidade – acho que essa é a primeira, em Maceió. Normal – e até compreensível – que, num primeiro momento, o motorista confunda as regras, não entenda muito bem o espírito daquela faixa reservada, pintada com uma tinta vermelha, no canto da pista. Trabalhos educativos da SMTT (mesmo que escassos), aliados à força de pulverização de conhecimento através da imprensa ajuda para que, num futuro próximo, as pessoas saibam utilizar esse equipamento público de forma adequada. E quem sabe até mudar a mentalidade antiga de motoristas, que acham que a bicicleta é um transporte exclusivamente de lazer e que “lugar de ciclovia é na praia”.

 

PS.: Como você pôde perceber, minha voz está meio rouca. Hoje ela amanheceu pior ainda. Estou cuidando dela. Outro dia, eu faço um post sobre a importância da voz no nosso trabalho.