Archive | novembro 2011

“Pronto. Eu tinha estreado ao vivo na tv”

Eu nunca tive medo de entrevistar personalidades da política, não amarelei na matéria de denúncia, não pensei duas vezes na hora de entrevistar assassino. Mas se tinha uma coisa que me deixava nervoso, suando frio e com borboletas na barriga era o tal do “link ao vivo”.

Certo dia, vejam só, eu entrei ao vivo no rádio e fiquei nervoso. Nem lembro o que eu falei. Gaguejei, suei, deu frio… E isso porque era só a minha voz que estava lá.

Sempre pensei que, na minha primeira vez ao vivo na tv, aconteceriam as piores barbaridades. Pensei em coisas “deselegantes”, delays sacanas, enfim, uma infinidade de possibilidades de não dar certo. Já tinha conversado sobre esse medo com minha chefe, com minha fono, com meus colegas de trabalho, com familiares, amigos, com as estagiárias…

Até que um dia, o repórter titular do link precisa fazer uma viagem. Num ímpeto de coragem, levantei o braço e disse: “posso fazer o vivo?”. Momentos de tensão. Senti que minha chefe ficou insegura, mas é mais doida do que eu. Aceitou.

Terça-feira, dia 22/11/2011 – Um dia antes.

Na véspera do “grande dia”, ela veio confirmar comigo: “Você vai MESMO fazer o vivo?”. Pensei um segundo que, na minha cabeça, durou dois dias. Disse: “Sim. Se eu não fizer, nunca vou aprender isso”.

Passei o resto do dia pensando. Lendo, me informando, ensaiando, pensando no que poderia dar errado, em como enfrentar a Lei de Murphy (aquela que diz que, se algo puder dar errado, dará). Mas não tinha mais como voltar atrás. Agora era enfrentar o meu medo, e procurei não pensar nele durante todo o dia.

Quarta-feira, dia 23/11/2011 – O dia.

Tive uma noite tranquila, acordei de madrugada sossegado, tomei meu banho, me arrumei e segui pra tv. Fui ouvindo aquela música que me deixa relaxado e respirando fundo. Naquele ponto, era tudo ou tudo. Não tinha chance pro nada.

O dia – 6:10 a.m.

Cheguei no local do vivo. Um monte de fios, um monte de instruções, um monte de papel. Um monte de coisa pra decorar.

Não sei se a temperatura no local estava baixa ou se eu estava nervoso (ou se os dois). Sei que tava com a mão gelada. Ensaiei meu texto da escalada, passei o áudio pro pessoal da técnica ajustar o volume e me preparei, como quem se arma pra quebrar uma onda ao meio durante um banho de mar.

O dia – 6:40 a.m.

Foi hoje, mas parece que faz tempo. Eu lembro que, pelo retorno, ouvi e cantarolei o jingle do patrocinador do programa que passa antes do jornal, lembro da vinhetinha do nossos patrocinadores (aquela: “Jornal da Pajuçara Manhã, oferecimento: Fulaninho, Cicraninho, Beltraninho”). Lembro de ter dito pra todo mundo que tava comigo lá: ATENÇÃO!

E começou o jornal. O apresentador deu bom dia, chamou o primeiro destaque, o segundo, e disse:  “Ao vivo, a gente fala sobre o dia nacional do doador de sangue”.

Foi um milésimo de segundo entre o diretor cortar a imagem pra mim, a técnica abaixar o som do meu retorno, eu perceber que estava no ar, lembrar da primeira palavra do texto e dizer: “Data é só na sexta-feira, mas Hemoal realiza ações culturais e de cidadania pra comemorar durante toda a semana”.

Pronto. Eu tinha estreado ao vivo na tv.

A partir dalí foi mais fácil. Entrei na primeira passagem de bloco, na segunda, concluí a primeira entrada do vivo, de cinco minutos, a segunda, de quatro minutos, e ouvi, pelo rádio, a chefe dizendo: “Rolou! Rolou! Desarma o circo”.

Eu, naquela hora que não tinha mais pra onde correr
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Um bote inflável, um furo e uma história pra contar

Essa não foi a primeira e, com certeza, não será a última vez que eu e minha equipe de reportagem passamos apuros durante a execução de uma pauta.

Esta vez foi bem emocionante. Saímos de Maceió num sábado bem cedinho, 6:30 da manhã rumo a Piaçabuçu – município distante 135 km de Maceió. Eu, Pereira (repórter cinematográfico) e Seu Dirceu (motorista e auxiliar) fomos acompanhar um dia de trabalho do documentarista de natureza Fernando Lara, que realiza um projeto bem bacana, fotografando áreas de proteção ambiental por todo o país.

Sei que lá pras tantas, tivemos que pegar um bote pra ir até a foz do Rio São Francisco. Imagina a cena: eu, de calça jeans e tênis, enfiando até a canela na água. Beleza.

Todos acomodados no bote, o seu Eugênio – um nativo muito figura que acompanhou a gente – deu a partida no motor 25 Hp e lá fomos nós. O tempo da viagem seria rapidinho, coisa de dez minutos. Seria, se não tivesse começado a entrar água no bote.

Minutos de tensão. A água começou a entrar pelo bote e o Eugênio abriu uma comporta pequenininha pra escoar. Só que entrava mais água do que saía. Resultado: uma poça de água que veio bater na minha canela de novo, a gente morrendo de medo – primeiro o medo de o bote afundar; segundo, o medo de molhar os equipamentos.

E tome-lhe água, tome-lhe água, tome-lhe água a entrar. Eu já agoniado. Sei que demorou um pouco e nós chegamos lá na foz. Ufa!

Fizemos a matéria, boas imagens, sonora muito bacana… E a hora de voltar? Não tinha outro jeito: tinha que ser no bote furado de novo.

Mais uma vez, tome-lhe água, tome-lhe água, tome-lhe água, e a gente foi beirando a margem, porque, qualquer coisa, ficava mais fácil de ir nadando, né?

Só sei que quando estávamos bem pertinho do ponto final, começou a entrar lama COM FORÇA no bote. E aí eu vi neguinho desesperado pra tirar a embarcação do raso pra parar de entrar lama… E, nessa hora, eu já tava anestesiado. Nem sentia mais medo. Só olhava.

Fim das contas: Um barco a menos pro instituto, uma história a mais pra contar e uma matéria bacana pra colocar no ar.

E tá pensando que eu achei ruim? Foi MUITO irado!

Abaixo, a matéria completa.

Quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho do Fernando, que é espetacular, segue o link do site: http://rotasverdes.blogspot.com/

Ainda sobre o glamour

Saiu ontem a matéria sobre a expansão no mercado para técnicos em segurança no trabalho. Mas o que interessa pra gente aqui, é a passagem. Foi por causa dela que eu fiz esse post e, agora, vocês vão ver o resultado de tanto trabalho.

Treze segundos que demoraram vários minutos para serem gravados.

Só me falta o glamour

Já ouvi muita gente dizer que entrou na faculdade de jornalismo porque quer aparecer na televisão, ser famoso, porque jornalismo de televisão dá dinheiro e traz glamour. Eu preciso segurar o riso nessas horas (confesso: as vezes não consigo).

Vendo de casa, parece fácil. O repórter está lá, todo arrumadão, seguro, empunhando o microfone e mandando ver nas informações.

Mas na verdade, caro leitor, nem sempre é assim. Todos os repórteres do mundo têm que lidar com fatores externos que atrapalham – e muito! – a nossa já tão difícil vida.

Acontece de tudo: a língua enrola, o texto não sai, a memória falha, o sol bate na cara e faz suar, é o vento faz voar tudo, a gola da camisa insiste em não ficar quieta… Isso sem falar na plateia que se forma discretamente e te deixa meio envergonhado, nos dezenas de engraçadinhos que passam por trás de você, dão “tchauzinho”, pintam, bordam e atrapalham o trabalho de toda a equipe.

E além de todos esses complicadores, o repórter ainda tem que se concentrar em passar a informação correta, de forma pausada, cuidando das ênfases, dos gestos, sem esquecer dos meneios de cabeça e expressões faciais, se preocupando com o tom que a matéria pede… É muita coisa pra aparecer por cerca de 10 ou 15 segundos na TV, né?

O auxiliar driblando o vento pra segurar essa tela que suaviza as sombras no rosto, o cinegrafista no meio do mato/lixo pra pegar o melhor ângulo, eu tentando abstrair tudo à minha volta pra me concentrar só na mensagem… Alguém viu o glamour passeando por aí?

Ps.: Eu não sou gordo, é o ângulo que não favorece. Aham. Tá!

Pause

Acontece quase todo dia. Entre uma marcação e outra, durante o atraso de um entrevistado ou quando uma marcação cai e sobra um tempo pra um lanche rápido. As vezes dá tempo de sentar com mais calma, comer um pastel (as vezes dois, quando não é fim de mês), e as vezes tem que se virar nos 30 e engolir um pacote de pipoca com coca, sentado na calçada.

 

Na foto: Eu, Jeferson (motorista/auxiliar) e Weliton (rep. cinematográfico)

Quando a emoção fala alto

Nesses pouquíssimos meses de reportagem, nenhuma história me emocionou, me tocou tanto quanto às dessas duas mães: Patrícia e Andréa.

A primeira soube, há oito anos, que o filho nasceria com Mielomeningocele. Uma má formação na coluna do bebê que deixa expostos medula e nervos de alguns órgãos. Junto com a descoberta da anomalia, a expectativa de saber que o primeiro filho poderia ter hidrocefalia, problemas motores e renais.

A segunda descobriu há poucos meses que a filha nasceria com o mesmo problema. A diferença é que a Andréa pôde fazer uma cirurgia na pequena Mariana antes do nascimento, ainda dentro do útero.

Foram duas estórias que comoveram, emocionaram, tocaram pessoalmente e profissionalmente não só a mim, mas a todos os envolvidos na matéria: produtora, cinegrafistas, auxiliar, editores…

O primeiro caso, da Patrícia, mexeu mais comigo do que o da Andréa. Talvez por tudo o que ela passou, todo o sofrimento a cada uma das duas vezes que o filho teve hidrocefalia, pelo preconceito que o menino sofreu durante esses oito aninhos de vida e por ter testemunhado o carinho e o cuidado que ela tem com o filho – uma criança normal, como qualquer outra.

O resultado dessa matéria é fruto, não só do meu engajamento, mas de toda a equipe: Cibele Tenório (produtora), Rodrigo Rocha e Weliton Soares (cinegrafistas), Jeferson Ramos (auxiliar), Rosa Ferro (editora) e Wando Cajueiro (editor de imagens).

Assistam e me digam o que acharam.