Archive | dezembro 2011

Quando toca o telefone

Uma das primeiras lições que aprendi, na teoria, em jornalismo: Jornalista é jornalista durante 24 horas.

Na prática, é o seguinte: Você pode já ter dado suas cinco horas de expediente, pode estar fora do seu plantão, pode ter tirado o dia de folga, pode estar de férias. Se a notícia chama, camarada, não tem pra onde correr. Você vai trabalhar.

Sabendo disso, sempre deixo meu celular ligado (se eu trabalho 24 horas, por que ele não pode?) e em alto e bom som.

Durante um domingo desses, em que dormir é o único objetivo de vida, toca meu telefone às 12:30. Era a chefe.

– O que era que você ia fazer hoje? – ela perguntou.

– Ahn… Dormir!? – eu respondi, enquanto eu me arrependia de ter atendido o telefone.

– Então levante e se arrume. Está tendo um arrastão no Centro da cidade.

Pedi um tempo para almoçar e ela concedeu, mas nem consegui. Saber que eu repousava tranquilamente sobre a cadeira, comia meu almoço tranquilo enquanto o mundo acabava lá fora, me dava a sensação de que eu estava fazendo algo muito errado. Peguei um pacote de biscoitos e fui comendo no caminho até a tv. Cheguei uma da tarde, saí às sete da noite, em pleno fim de semana de folga.

Essas coisas só acontecem quando elas não deveriam acontecer. Um avião jamais vai cair enquanto você estiver no aeroporto. Um fato que merece cobertura especial jamais vai acontecer diante dos seus olhos. Ele vai esperar quando estiver todo mundo descansando.

Dia desses, eu tive uma noite daquelas. Insônia, calor, o barulho vindo da rua. Resultado: não consegui pregar o olho antes das três da manhã. Às cinco e meia, portanto, duas horas e meia depois, o que me acontece? É, o telefone toca.

– Acorde! O repórter do vivo adoeceu. Você vai fazer o link. – me disse a estagiária. Não sei se exatamente com essas palavras. Afinal, eu estava mais pra lá do que pra cá.

Só lembro de ter levantado, tomado um banho rápido, vestido a primeira roupa que vi pela frente e ido pra tv.

Dias assim acontecem com todo mundo, quando menos se espera. Agora, me deixa ir ali, porque o telefone está tocando. Quem será desta vez?

(Peguei essa imagem na internet, para ilustrar o post)
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Chorei também

A pauta era bem clara: iríamos conversar com o presidente da OAB/AL sobre os treze anos de impunidade do caso Ceci Cunha, um dos assassinatos mais chocantes que Alagoas já viu.

Durante a entrevista, correu tudo bem. Com microfones e câmera desligados, fiquei sabendo que, na sala ao lado, trabalhava Luiza Barreiros, membro da primeira equipe de jornalistas a chegar ao local da chacina que vitimou a deputada federal recém-diplomada.

Depois de alguns minutos de conversa para convencê-la a falar sobre o assunto, fomos a uma sala reservada e começamos a gravar. Ouvi uma história que já havia passado mais de uma década, mas que continuava fresca na memória da jornalista.

Esse era o foco agora: cavar lembranças de quem viveu a história. E assim foi nas entrevistas que se seguiram.

Até que chegou o momento em que eu fiquei mais tenso: Rodrigo Cunha. Alí, na minha frente, não era o superintendente do Procon. Era o filho que perdeu pai e mãe no mesmo dia, de forma brutal, na chacina. Descobrir a forma mais sutil de chegar ao assunto, ainda antes de começar a entrevista, foi importante nessa hora.

“Puxar pela memória”, eu disse a ele. Conversamos bastante antes de gravar e ficamos, ambos, bem a vontade para entrar no assunto. Descobri um filho oras saudoso, oras revoltado com a impunidade. Foi ali que eu comprei a briga.

Ao final da entrevista com Rodrigo, deixei claro em minha mente que a nossa função era lembrar às pessoas sobre o caso e gerar nelas o mesmo sentimento que a família tinha: justiça.

Continuamos a matéria com pessoas ligadas intimamente a Ceci e à família dela. Até que chegou outro momento tenso: Adriana Cunha, irmã de Rodrigo, filha de Ceci.

Seria a primeira vez, em muito tempo, que ela falaria publicamente sobre o caso. Além dos trechos que foram ao ar, detalhes importantes da relação entre os membros daquela família com desfalques importantíssimos, mas ainda muito sólida.

Na minha frente, uma filha chorava ao lembrar-se dos pais; chorava ao lembrar-se do irmão, na época, adolescente e do homem incrível que ele se tornou; chorava de tristeza, de saudade, de revolta. Não aguentei. Chorei também.

Chorei por pensar nos dois, um com 17, a outra com 19 anos. Chorei por imaginar o que eles sentiram. Chorei por imaginar como foi entrar na fase adulta sem ter o apoio das pessoas mais importantes na vida deles: os pais. Chorei por me sentir solidário à dor.

Lembro de, em algum momento durante a finalização do texto, ter mandado à minha editora um e-mail dizendo que me sentia muito novo pra contar essa história. Eles, os personagens, as pessoas que, diretamente, sentiram o impacto da chacina, deveriam contar. E assim foi.

Abaixo, deixo o vídeo da reportagem que, na minha opinião, virou um documentário com todas as faces deste crime brutal. São 10 minutos para contar um dos maiores exemplos de impunidade do nosso Estado e a luta de filhos para colocar atrás das grades as pessoas que eles acreditam serem as culpadas por tirar a vida dos pais e familiares.

Agradeço e parabenizo a toda a equipe envolvida neste trabalho. Agradeço a confiança de ter colocado uma pauta tão importante em minhas mãos. Agradeço por me permitirem entrar de cabeça nessa história e conhecer mais sobre este caso.

Paciência

Se tem uma coisa que o repórter tem que ter é paciência.

Paciência pra convencer pessoas a darem entrevista, pra conseguir o momento exato de chegar até o ponto certo da conversa, paciência pra entender o que não está claro… Mas nada disso é pior do que a paciência necessária pra esperar entrevistado chegar.

É aquele tipo de entrevistado que marca o compromisso e acha que você tem todo o tempo do mundo pra esperar – e, não, você não tem mesmo. MESMO!

E haja chá de cadeira, haja criatividade pra arrumar passatempo (que pode ser desde jogar conversa fora, ler alguma coisa ou fazer, pelo celular, uma postagem no blog que estava esquecido).

Câmera em repouso