Archive | julho 2012

Sobre o respeito

Quando se pensa em jornalistas, muitas vezes as pessoas (que não o são) lembram daquelas cenas de desastres, onde a miséria está por toda parte e, encrustado na paisagem, está a figura do repórter, do fotógrafo. Apesar de não ser só isso, isso também é o nosso trabalho.

O fato de estarmos compondo o cenário, não quer dizer, necessariamente, que gostaríamos de estar ali, ou que não nos envolvemos, não temos sentimentos diante daquilo.

Darei exemplo. Um dia desses, eu cobri a inauguração de um bosque, onde cada árvore plantada ganhava o nome de uma pessoa que foi assassinada em Alagoas. Os familiares das vítimas plantaram as mudas das árvores. Em uma delas, a mãe de um jovem morto brutalmente chorava tanto, tanto… Não segurei as lágrimas. Apesar de estarmos ali “em cima” daquela senhora, anotando, filmando, fotografando, nos comovíamos com a dor daquelas pessoas. Lembro que no meu texto, eu escrevi o que senti ali: “Era como se os familiares estivessem enterrando novamente seus entes queridos”.

Pois bem. Ontem aconteceu um incêndio na favela Sururu de Capote. Doze ou treze barracos de papelão (não lembro bem o número agora) foram atingidos. Não sobrou nada. Foram-se moradias, móveis, colchões, eletrodomésticos, documentos, fotos… Tudo foi consumido pelo fogo.

Desde ontem, na hora do incêndio, várias equipes de reportagem cobrem o acontecido. Hoje, ao ir embora, uma mulher veio me agradecer por eu estar ali. Na verdade, ela não queria dizer somente aquilo. Ela queria agradecer por eu ter tratado o assunto com respeito. Sei disso porque ela continuou falando: “Você veio, fez tudo e tratou a gente bem. Vocês [eu e o repórter cinematográfico] foram dez. Hoje de manhã um repórter esteve aqui e quando viu o estrago disse que tinha ‘ganhado’ o dia. Ele ganhou o dia e a gente perdeu tudo”.

Engoli seco.

Já faz um bom tempo que eu percebi que o jornalista, apesar de ter fatos assim como corriqueiros, não pode se anestesiar, calejar. Um incêndio onde tudo é destruído é algo muito grave para que alguém afirme que ‘ganhou o dia’. A perda dessas famílias grita por uma postura humana diante daquelas cinzas.

Somos jornalistas, precisamos cobrir o fato, informar as pessoas, mas, acima de qualquer coisa, temos a obrigação e o dever, enquanto  profissionais e seres humanos, de ter – pelo menos – respeito a quem olha para o pó e não enxerga uma luz.

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