Profissão: jornalista

Parece que foi ontem que eu ouvi a professora Socorro Lamenha abrir o primeiro dia de aula com a frase:

“Esse é o primeiro dia do resto de suas vidas”

Hoje, dia do jornalista, eu me considero feliz e realizado. Trabalho num lugar que amo, com pessoas que amo, que me ensinam a cada dia. Não pretendo me considerar sabido o suficiente para dizer o contrário.

Sou um profissional que relata, registra, documenta o que se passa do lado de fora da janela. Sou o profissional que pergunta, pergunta, pergunta, que conta histórias. Mas, acima de tudo, sou um ser humano, um cidadão, que se revolta com o descaso, se emociona com os finais felizes, que fica triste com quando as coisas não dão muito certo e que ama poder espalhar isso pra todo mundo.

O resto da vida é muito tempo – eu espero! – pra eu decidir o que fazer com ele. Mas o que eu posso dizer é que, se eu fiz uma escolha certa na vida, foi a de prestar o vestibular para jornalismo.

Feliz dia do jornalista. 

Meu diploma. Há quem diga que não tem valor algum, mas algo que me dá orgulho, pra mim, vale muita coisa.
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– Oi, lembra de mim?

Não, com este título não estou fazendo mea culpa por nunca mais ter atualizando o blog. Estou reproduzindo uma pergunta frequente que eu ouço. As vezes acontece: chego em um local, alguém vem em minha direção, sorrindo e perguntando: “Oi, lembra de mim?”.

– Sim, mas não muito bem lembro de onde. – minto, com cara de tacho e sorriso amarelo que me denuncia

– Você me entrevistou naquele dia, sobre tal assunto, lembra? – a pessoa tenta me esclarecer. E, aí sim, aquele rosto começa a se tornar familiar.

Acho que é normal. Muitas vezes as pessoas marcam entrevistas, ficam nos aguardando para mostrar, divulgar um trabalho, assistem aquela reportagem milhares de vezes, mostram pros amigos, familiares… E eu tenho que terminar aquela entrevista, correr pra outra, pra falar de outro assunto, com outras pessoas… Não tem memória que aguente!

À espera do próximo minuto

Jornalista gosta de correria, vuco-vuco, aperto, adrenalina. Bom mesmo é quando a pauta “vira”, quando o programado vai pro beleléu e dá lugar ao fato quente, acontecendo alí, na hora, na sua frente.

Eu nunca tinha coberto uma operação policial. E é tudo isso o que eu falei aí em cima. É estar conversando com alguém e, de repente: “TÁ CHEGANDO UMA VIATURA DA POLÍCIA!”. Correria geral.

– Mas é só um monte de documento, gente.

– Ah, sim… Do que a gente estava falando mesmo?

– Sim, então, aí a produtora disse assim pra mim e… OUTRA VIATURA! OUTRA VIATURA!

Correria geral. De novo. TEM UM PRESO! TEM UM PRESO! Enfia microfone dentro da viatura, encosta a câmera na cara do cidadão e vem um bombardeio de perguntas – das mais acertadas às mais sem nexo.

– Por que o senhor está preso?

– O que o senhor tem a dizer em sua defesa?

– Como é o seu nome?

– Esse dinheiro é seu?

– Tostines vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais???

Naquele momento, os presos nos odeiam, os policiais nos odeiam… Até nós mesmos temos as nossas queixas.

– Porr*, meteu o cabeção na minha frente, não consegui fazer a foto!

– Caralh*, ficou na frente da câmera!

– Ei, quem tava com a mão na minha bunda?

– Alguém me explica que pergunta foi aquela?

Mas é isso mesmo. Dizem que o factual deixa o jornalista “burro”, que bom mesmo é matéria especial, que faz pensar, que exige toda a capacidade em escrever, em traduzir acontecimentos, em contar histórias. Fato. Mas é muito bom quando não se sabe o que esperar do próximo minuto.

Minha primeira operação policial devidamente registrada.  Com certeza aquela de “ficou na frente da câmera” foi pra mim e pro Welliton

“Valeu muito a pena”

Hoje eu voltava pra casa com minha chefe e confessei a ela que gostava mais de fazer matérias factuais, quentes, do dia, do que matérias de comportamento. E sei que não sou o único.

No último dia do julgamento dos acusados de tramar e executar a Chacina da Gruta, 19 de janeiro, minha chefe me ligou cedinho, pedindo para, ao invés de ir para a TV, seguir direto para o fórum. Eu iria ajudar ao repórter de lá, colhendo sonoras.

Cheguei lá e me deparei com um amontoado de jornalistas. Acabou o julgamento e começou a nossa movimentação. Todos os jornalistas que estavam quietinhos há quatro dias, se amontoaram em cima da família das vítimas, se espremeram para conseguir uma fala dos condenados, da acusação, da defesa…

Nessas horas é um empurra-empurra, todo mundo disputando um centímetro quadrado de espaço pra conseguir colocar o microfone, as câmeras fotográficas e filmadoras de forma adequada. Um caos!

Depois de nos espremer em volta de todas as partes envolvidas no júri, o meu dia estava só começando. A maioria dos repórteres presentes, no entanto, tinha olheiras profundas, caras de sono, cabelos despenteados e roupas amarrotadas. Marcas da cobertura intensa e cansativa. Alguns estavam ali há mais de 24 horas, direto, sem descanso – e sem reclamar.

Na saída, me despedi de uma colega de profissão que, às 8 da manhã, completava um dia inteiro de trabalho e estava indo para o merecido descanso.

– Cê tá com uma cara… Tá cansada, né? – perguntei, já tendo certeza da resposta.

– Tô. Tô morta! Mas valeu muito a pena. – ela respondeu, com cara de cansaço e satisfação.

Eu e a Ângelo Neto

Eu nasci em 17 de março de 1988, na maternidade do Hospital Ortopédico de Maceió, na Rua Ângelo Neto. Minha primeira escola, depois da creche – e por onde eu permaneci até ir morar em Aracaju, aos 10 anos, foi o Colégio Santíssimo Sacramento, na rua Ângelo Neto. Ao voltar da capital sergipana, eu estudei todo o ensino superior e me formei jornalista no auditório da Faculdade de Educação e Comunicação do Cesmac, na rua Ângelo Neto.

As partes mais importantes e fundamentais da minha vida aconteceram na rua Ângelo Neto.

Quis o destino que o meu primeiro emprego como jornalista fosse lá, no número 113 da rua Ângelo Neto. Hoje, nascido, criado e formado na mesma rua (não por planejamento, mas por coincidência), sou feliz no lugar onde trabalho.

Foi o lugar que me deu conhecimento prático e teórico – ambos fundamentais, o lugar que me estendeu a mão, que me deu, e continua dando, oportunidades de crescimento a cada dia. Impossível, desta forma, não me apegar, não adorar trabalhar lá, na “minha” rua, na “minha” tv.

A Tv Pajuçara completa hoje 20 anos e eu me sinto uma pequena parte disso. Todos os dias de manhã, quando eu faço a curva que me dá uma visão privilegiada da rua Ângelo Neto, sei que trabalho num local que faz parte da minha vida pra valer.

Um dia daqueles

Na minha primeira postagem deste blog, eu escrevi:

 “O repórter nunca sabe, com certeza, o que vai fazer daqui a uma hora – muito menos amanhã. (…) O período de tempo entre bater o ponto de entrada e o de saída da tv é muito grande.”

Hoje foi um dia desses.

Saí da tv um pouco mais cedo. A pauta era um café da manhã com uma coletiva de imprensa para lançar a segunda edição de um campeonato de luta. Por mais chato que seja, coletiva de imprensa é a chance de a gente encontrar com colegas de outros veículos e jogar papo fora enquanto a bendita entrevista não começa (e elas quase sempre atrasam).

Na saída da coletiva, um colega diz: “Arthur! Protesto de rodoviários no Centro. Tô indo pra lá”.

Liguei pra redação. Repassei o que tinha acabado de saber e fiquei à espera de segunda ordem. Até então, minha outra pauta ainda estava de pé. Mas foi só eu descer do carro.

Toca o telefone. Era a produção. “Derruba. Vai pro Centro!”.

Quando isso acontece, tudo tem que se resolver alí mesmo. O repórter tem que buscar as informações, as fontes, os entrevistados. Nesse caso, tive sorte. A população estava revoltada com o protesto e via nos microfones da imprensa uma forma de desabafo.

O mais difícil é saber o que de fato aconteceu e o que é “disse-me-disse”. Fora isso, organizar tudo na cabeça, a estrutura da matéria, o que entra, o que não entra, o que vai ser o texto da passagem. E isso tudo sob um calor de muitos graus.

Resumo da ópera: ficou assim.

Quando toca o telefone

Uma das primeiras lições que aprendi, na teoria, em jornalismo: Jornalista é jornalista durante 24 horas.

Na prática, é o seguinte: Você pode já ter dado suas cinco horas de expediente, pode estar fora do seu plantão, pode ter tirado o dia de folga, pode estar de férias. Se a notícia chama, camarada, não tem pra onde correr. Você vai trabalhar.

Sabendo disso, sempre deixo meu celular ligado (se eu trabalho 24 horas, por que ele não pode?) e em alto e bom som.

Durante um domingo desses, em que dormir é o único objetivo de vida, toca meu telefone às 12:30. Era a chefe.

– O que era que você ia fazer hoje? – ela perguntou.

– Ahn… Dormir!? – eu respondi, enquanto eu me arrependia de ter atendido o telefone.

– Então levante e se arrume. Está tendo um arrastão no Centro da cidade.

Pedi um tempo para almoçar e ela concedeu, mas nem consegui. Saber que eu repousava tranquilamente sobre a cadeira, comia meu almoço tranquilo enquanto o mundo acabava lá fora, me dava a sensação de que eu estava fazendo algo muito errado. Peguei um pacote de biscoitos e fui comendo no caminho até a tv. Cheguei uma da tarde, saí às sete da noite, em pleno fim de semana de folga.

Essas coisas só acontecem quando elas não deveriam acontecer. Um avião jamais vai cair enquanto você estiver no aeroporto. Um fato que merece cobertura especial jamais vai acontecer diante dos seus olhos. Ele vai esperar quando estiver todo mundo descansando.

Dia desses, eu tive uma noite daquelas. Insônia, calor, o barulho vindo da rua. Resultado: não consegui pregar o olho antes das três da manhã. Às cinco e meia, portanto, duas horas e meia depois, o que me acontece? É, o telefone toca.

– Acorde! O repórter do vivo adoeceu. Você vai fazer o link. – me disse a estagiária. Não sei se exatamente com essas palavras. Afinal, eu estava mais pra lá do que pra cá.

Só lembro de ter levantado, tomado um banho rápido, vestido a primeira roupa que vi pela frente e ido pra tv.

Dias assim acontecem com todo mundo, quando menos se espera. Agora, me deixa ir ali, porque o telefone está tocando. Quem será desta vez?

(Peguei essa imagem na internet, para ilustrar o post)